Parece ser um consenso entre os defensores de filosofias espiritualistas, esotéricas, místicas, holísticas, entre outras, que o ceticismo é um inimigo a ser combatido, que todo cético é um cego desmiolado, e medroso, que, por se sentir seguro com o seu materialismo exacerbado, teme o desconhecido e o não-físico, da mesma maneira que uma criança teme a escuridão.
Não é necessário dizer que não há medo algum por parte do ceticismo, e a hostilidade apresentada pelos defensores dessas teorias é, na verdade, o mecanismo de defesa contra o método investigativo dos céticos, simplesmente porque tais teorias carecem de evidências para se sustentarem, e são defendidas unicamente com fé.
Primeiro, é importante que definamos o que é o ceticismo, e o que é ser cético.Na minha concepção, ceticismo pode ser definido como um postura inquiridora.Tudo é passível de desconfiança, e a dúvida é o melhor caminho para que cheguemos a uma verdade, ou pelo menos o mais próximo dela.Não vou fazer uma análise histórico-filosófica sobre o termo, esta definição encaixa no proposto a esse post.É também semelhante a definição aceita pela maioria.
A dúvida consiste na não aceitação, e também na não negação, do objeto de estudo.Se alguém diz que foi raptado por alienígenas, eu tenho a opção de acreditar, de não acreditar e de duvidar.A dúvida deve ser imparcial, pelo menos no que se propõe à análise.Obviamente eu posso ter a minha opinião pessoal a respeito do assunto, mas essa não deve ser a posição oficial do cético, da mesma maneira que cientistas podem ter suas opiniões pessoas acerca do experimento que estão realizando, mas o método científico deve ser, pelo menos em tese, imparcial e cético.
O método investigativo utilizado pelos céticos para analisar fenômenos, sejam supostamente sobrenaturais, ou físicos (como a ciência em si), não difere do método científico.Buscamos evidências, as analisamos, formulamos teorias, chegamos a conclusões.
O cético é, portanto, aquele que mantém uma postura oficial imparcial frente ao objeto de estudo, e busca, através de métodos pré-estabelecidos, uma conclusão a respeito da alegação que está estudando: se é falsa ou verdadeira.
Aquele que nega uma alegação antes de se prestar a estudá-la não é cético, e o que mais existem são os pseudocéticos, aplicando o pseudoceticismo achando que, por ignorância ou por preguiça, que essa é a verdadeira postura cética.
Fica óbvio, através da definição, que as alegações por parte dos defensores de filosofias não físicas de que céticos são cegos ou que 'não querem enxergar a verdade' é totalmente infudada.O cético apenas se reserva o direito, mais do que sensato, de não aceitar alegações extraordinárias instantaneamente, e sim propor um estudo em cima do que é possível reunir de supostas evidências, para poder chegar a uma conclusão.Esse é o cerne do pensamento crítico.Qualquer um que vire adepto de qualquer filosofia sem questioná-la, buscar as provas de sua validade, é um acéfalo.
Terminadas as definições, pretendo demonstrar, através da argumentação, que o método investigativo baseado no ceticismo pode, independente de qual alegação está sendo estudada, ser utilizado para se chegar a uma conclusão sobre a veracidade ou não do objeto de estudo.
Mas fica pro próximo post.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O Material, o Imaterial e o Ceticismo - Parte 1
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domingo, 29 de março de 2009
O Início das Crenças
No post anterior, discorri sobre as duas componentes do ser humano, sem entrar em muitos detalhes, e no final iniciei um tema que sempre aparece em debates com teístas, que é a propensão humana a ter crenças em divindades.
Deixei duas perguntas : como essa rede de crenças teve início, e porque alguns permanecem crendo em um deus? Apesar do meu pouco gabarito para falar sobre isso, vou tentar, apoiando-me em alguns artigos já lidos, e na minha opinião própria.
Possivelmente, a crença em um deus teve início lá nos primórdios da humanidade, quando os macacos-quase-pelados davam passos na areia e começaram a ter noção de que aquelas pegadas eram as marcas dos seus pés.Os seres humanos têm um característica fascinante : curiosidade.Temos necessidade de descobrir coisas, de conceituar e definir.Precisamos tornar as coisas claras, nos assusta a idéia do desconhecido.A morte, por exemplo, não é a grande inimiga da maioria a toa, afinal, ninguém voltou pra contar como é o lado de lá.Apesar dos pobres mortais construirem crenças na tentativa de apazigar esse medo, na tentativa de definir o pós-morte, vemos que isso quase nunca tem um resultado satisfatório, já que mesmo tendo crenças, a grande maioria continua com medo de morrer.
Temos, então, quase como uma necessidade biológica, o intuito por definirmos algo.Quando essa características começou a aflorar na mente humana, admito não fazer a menor idéia, sei apenas que em algum momento, esta característica, mesmo que prosaicamente, aflorou.E, tendo em vista o que vou argumentar mais a frente, acredito que tenha sido imediatamente antes das primeiras crenças em divindades.
O hominídio, com sua consciência ainda em fase de desenvolvimento, provavelmente se viu indefeso frente a um mundo gigantesco que se abria diante de seus olhos.Cães adormecem e acordam tranquilamente, pois não tem consciência de sua existência.Tudo o que é necessário para que sobrevivam na realidade em que estão imersos está definido em sua componente biológica.Não precisam ser conscientes e ter um apurado senso de julgamento para sobreviverem.Já com os hominídios, provavelmente o mesmo não aconteceu.O que foi necessário, então, fazer? Começar a definir aquilo que os cercava.Definir simplificadamente, óbvio.Não me parece lógico um quase-macaco, um milhão de anos atrás, concluindo que as luzes que via no céu durante uma tempestade eram fruto do choque de nuvens com cargas opostas, e que essa colisão provocava a ionização do ar, resultando no relâmpago que estava visualizando.
Como ocorreu então essas definições? De maneira natural.O homem tinha apenas o mundo natural para ajudá-lo a definir as coisas, e em seu mundo, ele dispunha de duas figuras : ele próprio e os animais.Foi, acredito, nessa época primitiva, que começaram a surgir os primeiros deuses totêmicos e antropomórficos.
Imagine você, um hominídio totalmente primitivo, sem absolutamente qualquer conhecimento, diante de uma tempestade de proporções catastróficas.Como definir algo assim? Você dispõe apenas de dois tipos de seres que, durante suas experiências cotidianas, lhe pareceram capazes de executar ações : você próprio e os animais.Durante seu dia-a-dia, o hominídio era constantemente exposto a ações que eram realizadas por estes dois seres.Nada mais normal que julgar uma tempestade torrencial como uma ação executada por algo.Como o hominídio nunca vira uma pedra executando nada, perfeitamente compreensível que julgasse uma tempestade como obra de alguma entidade que guardava certa semelhança com os dois seres com quem convivia.
Não estou afirmando que logo após a primeira tempestade, o hominídio correu pra primeira árvore, tirou uma lasca de madeira e esculpiu a figura do primeiro deus.Estou apenas demonstrando como poderia, um hominídio primitivo, definir aquilo que presenciava.Definir era preciso para sobreviver, e saciar sua necessidade de conceitos.Definiam, portanto, com as ferramentas que lhe eram possíveis.Com o tempo, a mente humana foi evoluindo mais, as definições necessitaram acompanhar, e as idéias, como os seres, são passíveis de evolução.Vieram, portanto, os primeiros deuses que tinham características e formas.
Se a idéia de deus é um conceito tão primitivo, porque milhares continuam crendo? A resposta estou dando nos meus outros posts, o primeiro Razões para um deus - Explicativas, e o segundo virá depois.
Ante a esses argumentos, podemos concluir que a idéia de que nascemos com a crença em um deus é ridícula.Primeiro porque deuses fazem parte da cultura humana, são idéias, e nascemos desprovidos de idéias.Elas nos são passadas, e assimiladas, portanto, a crença em um deus vem pós-amadurecimento, e não pré-nascimento.E segundo porque podemos provar que os membros da espécie Homo Sapiens Sapiens só se tornam humanos, da maneira que definimos está palavra, quando mantém contato com outros humanos, através das diversas crianças feras encontradas em ambientes inusitados.Uma boa leitura a respeito disso é o site www.feralchildren.com , com diversos casos documentados.Pesquisar, primeiramente, sobre Amala e Kamala, duas irmãs que foram encontradas após terem sido criadas por lobos.A mais velha, não recordo agora se Kamala ou Amala, andava quadrupedalmente, rosnava e mostrava os dentes como lobos.Foram submetidas a um tratamento de socialização, mas ela morreu tendo aprendido apenas por volta de 50 palavras e umas coisinhas a mais.Ela não ria, não expressava emoções.Porque? Porque não era humana, não fora criada com outros humanos, não aprendeu a ser um humano.Era um lobo, apesar de pertencer a outra espécie.Porque não encontraram Kamala ajoelhada, de mãos juntas, orando? Ou porque não encontraram-na realizando qualquer outra coisa que pudesse ser relacionada a um louvou a algum deus? Porque ela não teve nenhum comportamente como esse durante o tempo que era socializada? Simples, porque ela não nasceu com nenhuma crença em nada.Porque sua segunda componente humana era ausente.Não poderia ela expressar nenhuma crença, pois crenças são idéias que são passadas, e não coisas que nascem conosco.
Agora sabemos o que acontece com a criança que é largada sozinha na ilha, sem contato com humanos.Vai andar nua, provavelmente adquirirá comportamento semelhante a alguma espécie com que mantiver contato, vai caçar como os membros dessa espécie, ou colher frutas, subir em árvores, andar quadrupedalmente, qualquer coisa, menos ajoelhar-se e rezar.
Ps .: Ao amigo Thiago, agradecimentos pela indicação do artigo sobre a busca pela verdade num sentido extra-moral, que foi um dos que utilizei para dar base aos argumentos.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Onisciência x Livre-arbítrio - Parte 1
Este é um paradoxo que desenvolvi um tempo atrás.Diferente do que pode sugerir o título, o foco do paradoxo não é a onisciência de algum deus contra o nosso livre-arbítrio, e sim a onisciência desse deus contra seu próprio livre arbítrio.
Primeiro, vamos definir os termos.Entendamos por onisciência a capacidade de saber tudo, passado, presente e, principalmente, futuro.Portanto, um ser onisciente sabe tudo que ocorrerá no futuro, até o fim dos tempos.Sua sapiência em relação a esse assunto é total, ou seja, infalivelmente, ele sabe o que ocorrerá em qualquer ponto do futuro.E entendamos por liberdade a capacidade de algum ser fazer aquilo que quer e deixar de fazer aquilo que quer, sem que seja compelido a isso.O problema do determinismo é tratado ao longo do texto.
Vou pegar um ser para usar como exemplo.Juliana encontra-se numa sorveteria, e tem dois sabores de sorvete para escolher tomar, morango e chocolate.Juliana afirma ser totalmente livre na sua escolha, então ela diz que pode escolher qualquer um dos dois sabores, mas vai escolher aquele que mais a agrada, o de morango.Como saberemos que Juliana não está escolhendo este sabor apenas porque esta escolha já foi determinada por acontecimentos passados, dentro de um sistema determinista a que ela está imersa? Não poderemos afirmar com certeza, pois não temos meios de comprovar se Juliana poderia realmente deixar de escolher este sorvete e escolhe o outro sabor, dadas as mesmas condições em que se encontrava no momento da escolha.Mas, felizmente, este não é o foco da minha argumentação.
Suponhamos que Juliana, enquanto conversa com seus amigos na sorveteria, afirme ser possuidora de um fantástico poder : ela pode prever o futuro.Juliana se diz onisciente e, para provar, ela afirma que previu que daqui a um dia, ela estaria novamente em uma sorveteria, e iria escolher um sorvete com sabor de chocolate.É justamente aqui que encontramos o problema.
Juliana se diz onisciente e livre, mas pretendo mostrar que estas características são incompatíveis, ou seja, não podem vir juntas em um ser.Para provar, vamos supor que ambas são verdadeiras, e encontrar as contradições que isso nos evidenciará.
Se Juliana realmente for onisciente, então sua previsão, a de que um dia dali para frente, ela estará numa sorveteria tomando um sorvete de chocolate, irá se realizar, pois assim é a onisciência, tudo que é previsto, é realizado.Porém, Juliana também diz ser livre, ou seja, pode deixar de fazer aquilo que quer, caso queira, então poderá ela deixar de escolher o sorvete de chocolate, se quiser? Vamos analisar ambas as situações :
a) Juliana deixa de escolher o sorvete de chocolate : Se Juliana é livre, então ela pode deixar de escolher o sorvete de chocolate se quiser, mas veja que isso compromete totalmente a sua onisciência, pois ela havia previsto que escolheria o sorvete de chocolate.Torna-se, então, impossível afirmarmos que Juliana realmente é onisciente, pois sua previsão foi um fracasso (o que ela previu, não se realizou)
b) Juliana escolhe o sorvete de chocolate : Se a onisciência de Juliana é plena, tudo que ela prevê, acontece, então ela nunca poderá deixar de escolher o sorvete de chocolate.Ora, mas se ela não pode deixar de escolher este sabor de sorvete, então ela não pode se definir como livre, pois não poderá fazer algo, ela terá, de qualquer jeito, que escolher este sabor de sorvete, independente de sua vontade, pois uma prerrogativa básica da onisciência plena é que o futuro é totalmente determinista, definido pelas condições do presente, imutável, portanto.Se é assim que as coisas funcionam, então podemos concluir que nosso presente é totalmente dependende de condições do passado, desde o começo dos tempos.Sendo assim, toda a minha vida já estava definida antes mesmo deu ter pensado em existir.
Uma onisciência plena traz consigo a necessidade de um futuro imutável, determinado, e este cenário é totalmente incompatível com o livre-arbítrio, pois todas as minhas futuras escolhas já estão decididas por eventos que ocorrerão antes, até mesmo, do meu nascimento.Minha vida já está traçada, minha vontade já está determinada, não tenho qualquer controle sobre ela.Sendo assim, liberdade e onisciência são duas características que só funcionam em cenários bem distintos, e totalmente opostos, não podendo estar ambas presentes numa mesma configuração de realidade.
Podemos aplicar essa idéia a qualquer ser, seja uma pessoa ou um deus que interfere na sua criação.E é simples visualizar isso, pois, se este deus é onisciente, então todo o futuro de sua criação já está determinado no momento que ele a cria.Se ele interfere em sua criação, como executar milagres para pessoas, por exemplo, estas suas ações já estão determinadas desde o exato momento que ele cria todo este Universo, portanto, ele paga um preço pela sua onisciência : perde sua liberdade.
Se no momento que ele dá vida à sua criação, as suas ações sobre essa criação já estão definidas, ele não poderá deixar de não fazer estas ações, ou isso comprometeria sua onisciência.Se ele fizer estas ações, isso compromete sua liberdade.
Infelizmente, esse argumento tem um erro fácil de ser notado : é necessária uma noção de tempo, antes e depois, passado, presente e futuro, para que funcione.Se eu postular um deus extra-temporal, o argumento perde o sentido.Mas, se eu postular um deus extra-temporal, isso vai comprometer outra coisa : NOSSO livre-arbítrio, de uma maneira irrevogável e definitiva.Em outro post eu demonstro porque.
Este argumento não é de todo inútil, apesar de não servir exatamente para deuses, serve muito bem para pessoas que dizem ter o poder de ver o futuro, coisa que não é raro.Todos gostam de se acharem livres, então argumente desta forma com uma pessoa assim, pergunte-lhe se está disposta a sacrificar sua liberdade em prol do seu poder.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Primeiro Motor Imóvel e Ser Necessário e Ser Contigente
Seguindo na série argumentos famosos, continuo analisando os argumentos de Tomás de Aquino sobre o ponto de vista cético.No post anterior, analisei apenas o segundo de seus argumentos, ou 'Sergunda Via', como é chamado, por ser um dos mais utilizados por teístas para tentar invocar deus de uma maneira lógica.Agora, examino o primeiro e o terceiro argumentos, ou 'Primeira Via' e 'Terceira Via'.
Podia tê-lo feito juntamente com o post anterior, mas decidi não, pois tornaria o post muito grande, e a leitura desinsteressante.Mas poderia pois estes três primeiros argumentos são basicamente o mesmo argumento, mas com palavras e conceitos diferentes.
Vejamos :
1a. via - Primeiro Motor Imóvel Nossos sentidos atestam, com toda a certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Tudo o que se move é movido por alguém, é impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente, logo há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente e que por ninguém foi movido, e um tal ser todos entendem: é Deus.
3a. via - Ser Necessário e Ser Contingente Existem seres que podem ser ou não ser, chamados de contingentes, isto é cuja existência não é indispensável e que podem existir e depois deixar de existir. Todos os seres que existem no mundo são contingentes, isto é, aparecem, duram um tempo e depois desaparecem. Mas, nem todos os seres podem ser desnecessários se não o mundo não existiria, alguma vez nada teria existido, logo é preciso que haja um Ser Necessário e que fundamente a existência dos seres contingentes e que não tenha a sua existência fundada em nenhum outro ser.
Ambos foram retirados do mesmo lugar que o argumento anterior.
Lendo a Primeira Via atentamente, vemos que 'motor' carrega basicamente a mesma idéia que a 'primeira causa', de sua Segunda Via.
Tomás afirma que, no nosso mundo, existem coisas que se movem.Uma coisa provoca movimento em outra, e assim numa série regressiva.Imaginemos uma mesa de sinuca, onde a bola azul está se movendo e cai na caçapa.Voltando atrás 'no tempo', vemos que a bola azul foi movida pela bola amarela, que por sua vez foi movida pela bola preta, que por sua vez foi movida pela bola branca, que por sua vez foi movida pelo taco do jogador.O jogado, portanto, foi o primeiro motor, embora ao pé da letra, ele não tenha sido movido por outras coisas também, mas abstratamente, podemos afirmar que ele foi o motor primeiro dessa série de movimentos.
Tomás, neste argumento, apela novamente para o problema da série infinita : se houvesse uma série infinita de bolas, cada uma colidindo com uma outra, nunca poderíamos visualizar uma bola em específico se movendo, pois sempre teríamos que retornar no tempo, infinitamente, de modo que, logicamente, essa série não poderia se sustentar sozinha.Torna-se necessária, então, a postulação de uma 'primeira bola', que não foi movida por ninguém, mas iniciou essa série de movimentos.
É um argumento bom, lógico, mas... onde está deus nisso? Porque Tomás deliberadamente afirma que esse primeiro motor que não foi movido é deus? Veja que ele simplesmente afirma que esse motor é um 'ser', e todos nós concordamos que este 'ser' é deus.
O argumento, por si só, serve para demonstrar que houve um primeiro motor que não foi movido por nada, mas ele não dá o direito a quem o usa a definir esse primeiro motor, a atribuir-lhe características.Eu não posso afirmar que esse ser é onisciente, ou que ele ouve nossas preces, ou que ele nos ajuda, ou que ele tem vontade deliberada, ou simplesmente qualquer outra característica.
Porque não afirmar que o primeiro motor foi o Big Bang, e ponto final? Ou que foi uma flutuação quântica de vácuo que moveu o Big Bang, e ponto final? Porque tem que ser um ser, e porque esse ser é imune ao argumento, ou seja, porque é JUSTAMENTE ELE que tem que ser o motor imóvel? Como garantir que ele também não foi movido por alguém, ou algo, que por sua vez foi também movido por alguém, ou algo, até que no final dessa série, tenhamos apenas um 'algo' desconhecido movendo tudo?
Como eu afirmei, apenas com uma boa dose de fé para engolir este argumento.
Agora, passemos para a Terceira Via.Mais uma vez, Tomás apela para o problema da regressão infinita.Ele afirma que tudo o que existe no mundo tem de ser fundamentado em alguma outra coisa, que não é fundamentada em coisa alguma, pois senão não resolveríamos o problema da regressão infinita.
Alguma semelhança com o 'motor imóvel'? Alguma semelhança com a 'primeira causa'? Todas, afinal, como afirmei, são o mesmo argumento, escritos com outras palavras.
Como de praxe, Tomás resolve este problema postulando que esta alguma coisa e deus, e ponto final, fim do argumento.Como engolir isso sem uma boa dose de fé? Como aceitar isso se você não acredita em deus, já que o argumento, por si só, nada evidencia da existência deste?
Existe diversas outras hipóteses para explicar a existência das coisas físicas, uma que eu mesmo cheguei a conclusão é de que tudo pode ser nada.Isso resolve, de maneira simples, a pergunta 'De onde veio tudo?'.Esse tudo é tudo e nada, ao mesmo tempo.
Imaginemos que tudo o que exista no Universo sejam partículas (o que não deixa de ser uma inverdade), mas apenas dois tipos de partículas, um elétron e um pósitron, sua antipartícula.O 'Universo' é apenas uma coisa abstrata, é apenas a maneira pela qual nos referimos às partículas, é apenas o conjunto delas.O elétron tem carga -e, e o pósitron tem carga +e.Para cada elétron neste Universo, existe um pósitron.
Pergunta : qual a carga total desse sistema? 0, ou seja, considerando todo o Universo, não existe carga, e existe, ao mesmo tempo.Isso porque +e-e=0, independente de quantos elétrons-pósitrons existam, pois sendo 'm' o número de elétrons que existem e 'n' o número de pósitrons, ((m)+e) + ((n)-e) = 0, pois m = n, como eu havia afirmado.
Agora suponhamos que todas as características do elétrons sejam 'anticaracterísticas' no pósitron.A massa o elétron seja anulada pela 'antimassa' do pósitron, e assim por diante.
Pergunta : O que existiria neste Universo? Nada, pois cada elétron se anularia com um pósitron, e restaria absolutamente nada, literalmente.Mas as coisas existem, embora no total, nada exista.
Isso responde a pergunta : 'De onde veio tudo?'.Não veio de lugar nenhum, pois tudo é nada, só que uma outra forma de nada.
Porque não considerar essa explicação, em lugar da de Tomás de Aquino? A minha, pelo menos, é mais científica.Porque não considerar outras explicações que tratam da mesma questão? Porque aceitar que esse algo necessário seja deus, e não simplesmente qualquer outra coisa sem vontade deliberada, sem inteligência, sem quaisquer outras características atribuídas a deus?
Repito, mais uma vez : estes argumentos apenas se fundamentam quando há fé.Sem fé, toda a lógica se demonstra ilógica.
Em um futuro post, analiso os outros dois argumentos restantes.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Causa Primeira ou Causa Eficiente
Um dos argumentos defendidos por Tomás de Aquino chama-se Causa Primeira, ou Causa Eficiente.Uma síntese do que diz esse argumento pode ser encontrado aqui, mas transcreverei-o :
Causa Primeira ou Causa Eficiente Decorre da relação "causa-e-efeito" que se observa nas coisas criadas. Não se encontra, nem é possível, algo que seja a causa eficiente de si próprio, porque desse modo seria anterior a si prórpio: o que é impossível. É necessário que haja uma causa primeira que por ninguém tenha sido causada, pois a todo efeito é atribuída uma causa, do contrário não haveria nenhum efeito pois cada causa pediria uma outra numa sequência infinita e não se chegaria ao efeito atual. Logo é necessário afirmar uma Causa eficiente Primeira que não tenha sido causada por ninguém. Esta Causa todos chamam Deus. Assim se explica a causa da existência do Universo.
Este argumento é bastante lógico, e bastante utilizado por diversos teístas para darem suporte a sua afirmação de que deus existe, mas ele tem várias falhas, e uma análise apurada nos leva a concluir que este argumento é, basicamente, inútil para a conclusão a que querem chegar.
O primeiro ponto a ser considerado é que o argumento tem como conclusão que houve uma causa primeira para o Universo.Mas e daí? No que isso nos ajuda a concluir que essa causa é alguma espécie de ser inteligente? Em nada ajuda, pois este argumento não se preocupa em qualificar esta primeira causa, ele serve apenas para nos levar a concluir que tem que ter havido uma primeira causa, mas nada diz sobre ela.É desnecessário, portanto, um argumento para isso, já que, praticamente todos, aceitam que o Universo teve uma causa, e investigam a Natureza a fim de deduzir que causa foi essa, qualificando-a, coisa que este argumento não faz.Portanto, de nada nos serve esse argumento para afirmar que um ser inteligente foi a causa do Universo.
O segundo ponto a ser considerado é que, por pura fé, apenas o Universo necessita de uma causa, mas não deus.Em outras palavras, teístas acreditam que o Universo é um efeito, portanto, requer uma causa, e postulam deus como a causa primária, a causa incausada, e assim terminam a argumentação, como se isso fosse algo auto-evidente.Mas não é.Porque deus não necessitaria de uma causa também? Quais evidências tenho para afirmar que é deus, apenas, a causa incausada, e não um supra-deus, que teria criado deus, que teria criado o Universo? Ou ainda, um supra-supra-deus, e assim sucessivamente.Poderia até mesmo supor que a primeira causa não tenha sido inteligente, com vontade deliberada, mas esta tenha dado origem a um ser inteligente, e este tenha dado origem ao nosso Universo.
Vou exemplificar melhor.Suponhamos que exista um MicroUniverso, criado por algum cientista.Seres atômicos povoam este MicroUniverso, e, após certo tempo de existência, eles adquirem inteligência e começam a questionar os motivos de sua existência.Alguns microseres, então, postulam que houve uma primeira causa, antecendente a seu MicroUniverso, e esta causa foi um ser inteligente, que o criou a partir de vontade deliberada.Esta afirmação estaria correta? Sim, e não, pois de fato foi um ser inteligente que criou este MicroUniverso, mas ele não foi a causa primeira, pois muitas outras causas antecederam este ser inteligente, que culminaram neste ser, que então pôde criar este MicroUniverso.Seria errado, portanto, atribuir a qualidade de 'causa primeira', ou 'causa incausada' a este cientista.
O mesmo raciocínio pode ser transportado para a nossa realidade.Nenhuma evidência pode ser utilizada para inferir que o Universo precise de uma causa, mas a causa do Universo não precise de nenhuma.E nem o argumento trata de responder essa questão.
O terceiro ponto a ser considerado é que este argumento não é válido se analisado com bastante atenção, pois ele utiliza, como premissa, um fato constatado por análise da realidade, para deduzir algo que antecede a realidade.Veja que é utilizado a regra da 'causa e efeito', que diz que toda causa necessita de um efeito, mas esta regra pertence a nossa realidade, ela está inserida dentro do nosso Universo.Para nós, todo efeito tem uma causa, e podemos chamar essa lei de uma lei implícita.Logo, é sem sentido que eu utilize esta lei, que está contida no Universo, para afirmar que o próprio Universo precisa de uma causa, pois assim eu estaria, em outras palavras afirmando que antes de existir o Universo, existia a necessidade de causas para efeitos, ou seja, que antes de existir o Universo, esta lei já existia.Se tudo o que havia antes do Universo era algum ser inteligente, então este ser inteligente estaria subjulgado a uma lei que já existia antes dele mesmo.Não poderia, portanto, este ser inteligente ser a causa primeira de coisa alguma, pois já existia algo antes dele.Utilizar esta lei para afirmar que o Universo precisa de uma causa é como dar um tiro no próprio pé, pois isto invalida drásticamente o argumento.
Para finalizar, é importante notar que este argumento de nada tem valor sem uma boa dose de fé.Isto é perceptível já no primeiro ponto que considerei, pois quem utiliza este argumento qualifica esta primeira causa da maneira que lhe parece mais conveniente.Um cristão qualifica-a como o deus cristão.Um muçulmano qualifica-a como seu deus islâmico.Esta primeira causa adquire uma faceta diferente, dependendo de quem utilize o argumento.Porém, existe uma característica em comum a todas as intepretações dessa primeira causa, que é a de um ser inteligente, e com vontade deliberada, independente de suas outras características que lhe serão atribuídas dependendo de quem esteja utilizando o argumento.Mas ainda assim o argumento se mostra inútil, pois ele não trata nem mesmo destas duas características básicas, pois uma causa primeira pode muito bem ser algo débil, sem vontade, sem inteligência.Sem contar que, baseado no terceiro ponto que foi considerado, o Universo pode simplesmente não necessitar de causa alguma, já que esta relação causa-efeito é algo inerente ao próprio Universo, e não faz sentido afirmar que antecede o próprio, ou necessitaríamos encontrar transportar o questionamento 'quem é a causa primária?' do Universo para a própria lei da causa-efeito, e assim nos enrolariamos novamente, já que se a lei de causa-efeito necessita de uma causa, então, novamente, existiria uma lei de causa-efeito antes da própria lei de causa-efeito, e todo o argumento se torna sem sentido, a partir daí.
Assim são os cinco argumentos de Tomás de Aquino, sem sentido e todos com a necessidade de uma boa dose de fé para serem engolidos.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Liberdade e Ateísmo
É certo que o ateísmo confere certa liberdade aos que adotam sua filosofia.O ateu não mais se vê diante dos olhos incansáveis de um ente supremo que o seguem até nos momentos de maior intimidade, não mais necessita se sentir culpado ao 'cometer' atos de extrema insignificância, que muitos julgam serem pecados mortais, não mais precisa deixar de gostar de determinadas coisas porque uma deidade em específico desaprova-a, não mais precisa seguir mandamentos que muitas vezes não entende, e até discorda, embora acredite que deva manter essa discordância muda, seguindo cegamente tais ensinamentos, muitas vezes por medo, outras por ambição pelo tão sonhado prêmio eterno.Em resumo, o ateu pode tirar o encéfalo da inércia e começar a usá-lo para julgar, concordar, discordar, opinar.
Não que teístas não possam fazer tais coisas.Obviamente podem, e o fazem.Mas, convenhamos, as restrições são bem maiores.Só por acharem que duvidar da existência de sua divindade já é uma heresia, podemos perceber.Estando mais abertos a novas opiniões, a novos modos de pensar, o ateu (ou pelo menos aquele que duvida, mesmo mantendo a crença, embora seja um paradoxo) acaba apreciando um grau de liberdade mais notável do que o dogmatizado.
É claro que o ateu não é o ser mais livre desse mundo.Claro que não experimentamos a liberdade plena, enquanto os teístas ficam encarcerados dentro de suas convicções inatingíveis por dúvidas.Até porque liberdade plena é algo teórico, e não prático.
O que acontece é que o ateu tem um poder maior de julgamento, que rompe os simplórios limites dos ensinamentos de um livro milenar.O ateu experimenta o poder de entender aquilo que necessita ser estudado, e não simplesmente aceita porque um ser mágico disse que é assim que tem que ser.
Justamente por essa capacidade, somos maus vistos, pois julgam-nos como devassos, puramente hedonistas, sem quaisquer valores, sem moral, pois estes que julgam, acham que valores e moral podem apenas ser extraídos de seu livro sagrado.Acreditam que a moral absoluta está escrita nas páginas de um livro velho, e todos aqueles que não compactuam com esse livro, não seguem essa moral absoluta, logo, são sodomistas.Estes acham que não há motivos, por exemplo, para um ateu ser solidário com um próximo, pois: 1) ele não teme um deus e 2) ele não acredita no céu.Se ele não teme um deus, então não tem porque ele ser solidário, já que Deus nos manda ser solidários, e quem não for, sofrerá as consequências.Se ele não acredita no céu, então não tem porque ele ser solidário, já que Deus diz que apenas os solidários vão para o céu.Logo, nada impede o ateu de chutar o próximo, em vez de dar-lhe roupas de frio ou alimento.
Uma frase muito interessante, que infelizmente não lembro a quem pertence, diz que 'Se agimos bem por medo ou esperando uma recompensa, então somos uma espécie bem medíocre'.Uma pessoa que alimenta tais pensamentos em relação a um ateu com certeza acredita que só existem estes dois motivos para se agir bem, por medo ou por ambição.Se ela acredita que existem apenas estes dois motivos, então podemos concluir que ela age por pelo menos um desses motivos.Ou ela é solidário porque teme o inferno, ou almeja o céu.Que moral é essa? Que valores são esses? Ajudar o próximo apenas porque isso vai lhe garantir uma passagem para o céu? Isso é ser bom?
Se Deus existir, e for justo, então com certeza vai preferir o altruísmo de um ateu, que o faz sem esperar nada em troca, tanto fisica quanto transcendentalmente, a um ato altruísta forçado de um crente, que o faz porque isso vai lhe garantir o céu.Se Deus preferir este último, então não é um ser justo, e acho que vou estar bem melhor no inferno, bem longe dele.
Ateus não são destruidores, assassinos ou pessoas sem compaixão só porque não acreditam que uma boa ação lhe renderá frutos no pós-vida.E também, como os teístas, estamos sujeitos a regras.Todos vivemos em sociedade, e para que ela funcione bem, são necessárias leis.Todos devem estar sujeitos a estas leis.Existem dois tipos de leis, as implícitas e as explícitas.Leis explícitas são aquelas que são traduzidas pro papel.Matar, por exemplo, na nossa sociedade, é um crime, e a pessoa que cometeu tal crime irá pagar com o encarceramento e consequentemente, com o afastamento da sociedade (pelo menos em tese).Mas não matar também pode ser considerada uma regra implícita em uma outra sociedade.A dos babuínos, por exemplo.Um conselho de babuínos não decidiu que matar é algo errado e que os babuínos não devem praticar tal ato, mas mesmo assim babuínos não saem por aí matando seus semelhantes.E a explicação é simples : se fizessem isso, não teria como existir uma sociedade de babuínos, pois eles não poderiam andar juntos, ou brigariam até a morte de um.Sozinhos, são muito mais vulneráveis do que unidos.Essa é uma regra implícita, que existe devido a estrutura da sociedade.Para que haja uma sociedade por mais simples que seja, um conjunto de leis implícitas se faz necessário, entre eles, não matar seus semelhantes.
Portanto, todos, ateus ou não, estamos sujeitos a estas regras.Caso descumpramos uma ou mais, devemos pagar as penalidades que democraticamente são escolhidas (pelo menos em tese).E assim a sociedade vai caminhando, de maneira pacífica.
Imagine um cenário onde todos vivem felizes, com um teto em cima de suas cabeças, com a barriga cheia.Todos vivem pacificamente, amigavelmente, todos curtindo suas vidas da melhor maneira possível.É um cenário utópico? Pelo menos eu acredito que sim.A pergunta é: dogmas religiosos se fazem necessário para que tal cenário se cumpra? Pelo menos eu acredito, veementemente, que não.O que é preciso para que cheguemos o mais perto possível desse cenário? Educação + Leis + Líderes honestos.Tudo começa com uma boa educação.Eu não tive educação religiosas, no entanto, não sinto uma necessidade incontrolável de beber sangue humano, vontade que alguns acreditam que os ateus partilham, simplesmente por serem ateus.Uma boa educação para as crianças, um conjunto bom de leis para que a sociedade funcione e líderes honestos para fazê-las serem cumpridas, e teremos um bom lugar para se viver.Não existe necessidade de religiões.
Um amigo meu acredita que a religião é boa para manter as pessoas mais pobres nos eixos.É uma maneira interessante de pensar, e, por outro lado, muito prosaica.O que é melhor: que mantenhamos as pessoas mais simples em grilhões de crenças sem sentido, ou que façamos investimentos para educar estas pessoas simples, tornando-as mais críticas, e, consequentemente, chegando mais perto do nosso cenário utópico? Sem contar que religião não previne nada, e os apenas 1% do total da população carcerária dos EUA serem ateus, confirma isso.Mais de 95% do nosso país se declarando como pertencente a alguma religião, mas sendo, pelo menos o meu estado, um dos mais violentos do mundo, confirma mais ainda.
Deixo então uma conclusão, e uma idéia: ateus não são seres malignos loucos por almas humanas, pelo contrário, o ato altruísta de um ateu é muito mais belo do que o de um teísta, que pode esconder segundas intenções por trás, e derrubemos igrejas e construamos mais escolas.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Tabula Rasa - Parte 1
Os seres humanos são compostos de duas partes, simplificadamente falando, que são a parte biológica e a parte psicológica.Entenda-se psicológica como a cultura que agregamos, o conhecimento que armazenamos etc.
Nossa parte biológica está definida pelos incontáveis genes que compõe nosso código genético.Nosso corpo é a projeção daquilo que está codificado em nossos genes.Obviamente que, ao longo de nossa vida, podemos modificar nosso corpo, mas inicialmente, nosso DNA nos fornece tudo aquilo que bilhões de anos de evolução julgou ser necessário para que sobrevivamos.
Dentro desse DNA, também está codificada a nossa segunda parte componente, nossa psicológico.Nascemos com capacidade para... Com capacidade para falar, com capacidade para aprender, com capacidade para agregar cultura.Não nascemos conhecedores das palavras ou das leis, por exemplo, temos apenas capacidade para aprender.Logicamente, quem nos ensinarão estas coisas que devemos saber serão outros humanos.
Analisando essa forma simplificada de enxergar a condição humana, o que podemos concluir? Bom, podemos concluir que nascemos como uma folha em branco, como uma 'Tabula Rasa', como definiu John Locke, pelo menos em termos culturais, lingüísticos.Após essa conclusão, pensemos : o que defini um ser humano? Podemos ter a definição da espécie Homo Sapiens Sapiens observando apenas nosso componente biológico.O código genético que possuímos, ou fenotipicamente, nossas características, nos definem, biologicamente, como esta espécie.Podemos tentar uma definição mais ousada, e definir como humanos aqueles seres que tem potencial para aprender.Mas logo vemos que essa definição é falha, porque diversos animais tem potencial para aprender várias coisas, como os cachorros, que podem ser adestrados.Podemos então definir humanos como aqueles seres que possuem capacidade de comunicação.Mas ora, chimpanzés também podem se comunicar, visto que vivem em sociedades que por vezes são excepcionalmente complexas.Outra definição que podemos dar para a palavra humanos engloba aqueles conhecimentos que aparentemente apenas nós podemos dominar, como o poder de fazer ciência, ou o raciocínio lógico-matemático.
Se adotarmos essa definição para humanos, podemos automaticamente inferir, dado as premissas anteriores, que não nascemos humanos, somos TORNADOS humanos por outros humanos.Em palavras mais simples, se ser humano significa dominar o conhecimento que aparentemente apenas nós podemos dominar, e tendo em vista que não nascemos com esse conhecimento, apenas o aprendemos ao longo de nossa vida, então não nascemos humanos, nos tornamos humanos ao longo de nosso aprendizado.Nascemos como uma espécie animal, e assim permanecemos até que tomemos parte em alguma cultura, até que comecemos a demonstrar nossa habilidade para o aprendizado.Em suma, nada, inicialmente, nos separa dos animais, em termos biológicos.Temos potencial para linguagem, para o aprendizado, sim, mas como argumentei anteriormente, animais também tem potencial para aprendizado, para a linguagem.Nosso potencial aparentemente é bastante superior, mas isso é apenas uma questão de grau.Os olhos de um gavião são muito melhores do que o de um pequeno canário, mas ambos continuam sendo aves, e ambos continuam sendo animais.Sem contar que essa é apenas uma questão de ferramentas de sobrevivência.Temos potencial superior para aprendizagem, mas morcegos possuem ecolocalização, cães possuem ótimo faro e audição.
Nascemos sem qualquer distinção de qualquer outro animal (na minha opinião, continuamos sem distinção de qualquer outro animal durante toda a nossa vida, até a morte, mas alguns cismam em nos colocar em uma posição superior a dos animais, não admitindo que todos fazemos parte do mesmo saco, mas isso é irrelevante no momento) e permanecemos assim até que nos seja passada nossa cultura característica.
Mas, afinal, para que serve isso tudo que estou falando?
Para demonstrar o quão sem sentido são afirmações como 'Todos nascemos crendo em um deus'.Certa vez, assistindo a um documentário sobre uma mulher atéia, que criava os filhos sem impôr-lhes uma educação religiosa, que foi passar uns dias na casa de uma família cristã, me deparei com a declaração da dona de casa cristã 'É um absurdo o que ela [a moça atéia] faz com seus filhos, pois todos nascemos com a crença em Deus'.A frase não foi absolutamente essa em sintaxe, mas em semântica sim.
Não foi apenas uma vez que, em debates, teístas afirmaram que, por exemplo, uma criança abandonada numa ilha, sozinha, sem qualquer contato com os humanos, apresentaria atitudes semelhantes a credores em deus, ou seja, que essa criança, ao crescer, alimentaria uma crença numa divindade, porque essa crença já estava inserida em sua psiquê desde o nascimento.
Esse tipo de afirmação demonstra desconhecimento em várias áreas do conhecimento, como Biologia, Antropologia, Sociologia.Porque alguns crêem em um ou mais deuses, e como isso provavelmente começou?
Deixo pro próximo post.
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domingo, 12 de outubro de 2008
Graças a Deus!
Quando nos curamos de uma doença grave, ou quando tudo corre bem, afirmam "É graças a Deus".E quando não nos curamos, ou tudo corre mal, é graças a quem?
Ousam dizer que "Há males que vêm para o bem", e fazem certas analogias como "Um pai não tem de punir o filho para que aprenda? O mesmo faz Deus conosco!".Mas é quando essa punição é fatal, ou irreversível, ou nada me traz de aprendizado? Quando estou dirigindo tranquilamente por uma estrada, e um caminhão desgovernado destrói meu carro, juntamente comigo, me proporcionando uma morte terrível, exatamente o que eu aprendi (ou deveria ter aprendido?) Ou quando tomo um tiro de uma bala perdida e fico entrevado numa cama, tetraplégico, pro resto da vida, o que supostamente Deus queria me ensinar? Que eu não devo andar pelas ruas? Que eu devo me trancar em meu quarto e evitar contato com esse mundo violento?
E quando nasço de uma família extremamente pobre, e sou obrigado, quando criança, a cavucar nos lixões para achar 'comida'? O que será que Deus está tentando me ensinar? Sim, porque isso certamente tem de ser um castigo, já que eu não consigo ver o lado bom de se ter que catar comida no lixo, por mais que tente (acredito que nem o mais ferrenho dos otimistas conseguiria dizer o lado bom disso).Ou quando nasço com uma deficiência mental, ou até mesmo física, e sou obrigado a assistir crianças pequenas correndo serelepe pra lá e pra cá, aproveitando sua energia da infância, enquanto necessito ficar sentado na minha cadeira de rodas, porque minhas pernas não respondem?
Se temos livre-arbítrio, deveriam todos ter chances iguais para poder, a partir dessas chances, decidir o que fazer.Mas se eu já nasço com uma deficiência física que me impedirá de ser um jogador de basquete, por exemplo, meu grande sonho de infância, onde está exatamente a o livre-arbítrio? Não foi Deus quem decidiu que eu nasceria assim? Ou será que fui eu próprio, antes de nascer, que escolhi ter essa vida? Parece-me tolice pensar dessa maneira.Se Deus já escolhe como nascerei antes mesmo de nascer, então o livre-arbítrio encerra-se aí.Não é possível conciliar liberdade com essa idéia.Alguns cristãos afirmam que desafortunados são, na verdade, mais afortunados que os saudáveis, pois 'Deus tem um plano especial para eles'.Novamente, a liberdade ferra-se, pois não fui eu que escolhi esse plano, foi Deus quem o escolheu pra mim.Se me perguntassem 'Você prefere ser rico, morar no conforto e ter o que quiser comer, com bastante fartura, ou prefere ficar com o plano especial de Deus, onde você nasce pobre, tendo que pedir esmolas pra se alimentar, e dormir na rua passando frio, mas ganha um desconto de 90% na quantidade de boas ações que deveria fazer pra ir para o céu?', eu mandaria Deus enfiar o plano dele lá naquele lugar (se é que a divina santidade tem aquele lugar, mas como somos sua imagem e semelhança, então é provável que tenha.Eu só fico a me perguntar que serventia tem isso pra ele).
E para os que acreditam que desgraças só acontecem com infiéis, por favor, www.google.com.br , e boa pesquisa.
O post me parece meio incompleto, num momento mais oportúnuo, incluo mais incongruências divinas (ou seriam incongruências bem humanas?)
Louvemos ao todo poderoso, protetor dos ricos e bem afortunados!
Ps.: O post foi mais direcionado aos cristãos, mas acredito que se encaixa bem para qualquer deus que se julgue justo e milagreiro.
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Didi
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sábado, 11 de outubro de 2008
Porque a fé não é racional?
O grande problema, considero eu, das crenças teísticas é um que a maioria compartilha : o proselitismo.Além deste, a dogmatização.Teístas, convencidos de serem donos da verdade absoluta, saem em militância afim de converter o máximo possível.Durante essa 'árdua missão', claro, não poderia faltar o preconceito para com aqueles que não fazem parte de suas ideologias.
Cristãos convencidos de que só quem louva Deus pode experimentar o amor, acreditam que ateus e demais teístas (que são, basicamente ateus, do ponto de vista cristão) são seres frios e desprovidos de afeição pelo próximo, já que é impossível algum sentimento nobre como amizade e respeito com o próximo germinar no coração de um ser onde há ausência de Deus (e, acredite, já fui acusado disso).
Mas não quero me aprofundar nessa questão, este foi apenas um parágrafo introdutório.Quero me ater em outro ponto, na falta de razão total das crenças.Como comecei a introduzir em um artigo anterior, à um deus são atribuídas diversas explicações para diversos fatos.Um cristão, por exemplo, que segue a bíblia, acredita ser Deus o criador do Universo, dos planetas nele presentes, da vida, além de diversos outros milagres que lhe são atribuídos.Note que não faz absolutamente qualquer sentido atribuir a Deus tais feitos, e demonstro porquê.
É importante salientar que os cristãos acreditam ser Deus intocável pela ciência, ou seja, não podemos, de forma alguma, provar que determinado fato é proveniente de uma causa divina, pois não podemos ter acesso a essa causa.Se X fosse um fato qualquer, não poderíamos afirmar que ele deriva de D, uma causa divina, pois D não poderia ser detectada pela nossa ciência.Por isso acredita-se que os milagres são fatos que não possuem qualquer explicação racional, ou natural, já que, sendo derivado diretamente de uma causa divina, este fato pareceria, para nós, como advindo do nada, de lugar algum.
Peguemos, novamente, o fato X.O fato X pode ser simplesmente qualquer coisa, para exemplificar, vamos adotar que X seja a emergência da vida na Terra.Constatado que a vida existe na Terra, temos que X é um fato válido.Aplicando a causalidade, podemos inferir que X deriva de um outro fato, chamemos Z, que causou a vida na Terra (obviamente não foi um fato isolado o responsável, mas vamos simplificar).Z permanece desconhecido para nós, embora saibamos que ele tem de existir, pois todo a todo efeito está atrelado uma causa (não quero entrar também nos méritos de discussões sobre causalidade.Vamos partir da premissa que ela é válida).Portanto, temos X e temos o conhecimento de que Z existe, e provocou X.Qual é a posição sensata, ante a ignorância em relação a Z? Eu diria, por acreditar que esta é a posição sensata, que devemos invocar hipóteses para podermos tentar desvendar Z.Munido de possíveis explicações, utilizando conhecimentos anteriores, devemos pesquisar Z para podermos definí-la completamente.Enquanto estudo Z, não sei o que ela é, não adoto uma explicação como verdadeira até ter provado, e mesmo após ter provado, minha explicação permanece questionável para qualquer um que discorde da minha definição.Durante todo esse processo, eu permaneço totalmente neutro em relação a Z, afinal, não sei do que se trata.
Agora, o que faz um teísta em relação a um fato X qualquer, cuja causa desconhece? Simples, ele assume que foi um deus e pronto.Muito simples, poupa bastante trabalho, não é preciso formular hipóteses, estudar, gastar tempo pesquisando.Ele apenas assume que foi uma causa divina, confecciona uma estátua deste ser divino que provocou X e reza pra ela.Onde está a razão nisso? Onde está o sentido nisso? Onde está a sensatez nisso?
Diante de um mistério, por mais complexo que seja, a posição sensata é sempre pesquisar.Não importa quanto tempo leve, nem quanto esforço irá custar.Muitos acreditam que existe um prazo de validade para um mistério.Se eu pesquiso por 50 anos e não descobri a causa, então automaticamente passa a ser efeito divino.Se eu desconheço a explicação de um mistério, os teístas riem de mim e se vangloriam de saber a resposta : Deus.Como já postei antes, durante um debate com um teísta, ele afirmou que minha resposta 'Não sei' para a sua pergunta 'Como o Universo surgiu' é demonstração de 'preguiça intelectual'.Sou obrigado a conhecer a explicação de todos os mistérios do mundo, senão sou simplesmente um preguiçoso.É claro que ele sabia a resposta pra essa pergunta, 'Foi Deus', ora essa, como não haveria de ser?
Apesar do que alguns afirmam, a maioria não assume deus como uma HIPÓTESE, o que, para mim, é algo totalmente plausível.Assumir deus como uma hipótese que pode explicar a causa de um fato é se manter neutro a essa causa, e estar estudando-a com a finalidade de descobrí-la.Porém, quando eu não faço sexo porque está escrito na bíblia que Deus é contra sexo fora do casamento, eu não estou assumindo Deus como uma hipótese, estou tomando como premissa que ele existe, já que a bíblia supostamente é sua palavra, e se eu a sigo, e porque acredito na validade dela, logo, acredito que Deus existe.
Qualquer tipo de fé é sem sentido, pois a premissa básica é acreditar em algo que não pode ser provado e que nunca poderá ser provado.Adotar isto como uma explicação para a causa de um fato é absolutamente ridículo.Adotar uma divindade como hipótese, é perfeitamente compreensível.Eu mesmo não ouso descartar uma explicação divina para a emergência do Universo, pois não é científico inferir a inexistência de algo.Apenas me reservo ao direito de considerá-la a menos implausível dentre outras explicações.
Em síntese, diante de um fato, afirmar que sua causa é divina por desconhecermos sua causa não é sensato.Primeiro porque não podemos provar que a causa é divina, então não vai passar de pura fé.Segundo, porque, como dizia Carl Sagan, 'Ausência de evidência não é evidência de ausência', ou seja, não é porque ainda desconhecemos a causa de um fato, que ela não existe.Como os teístas assumem como premissa básica que uma causa divina não pode ser detectada, então os fatos que não possuem causas naturais, são automaticamente adotados como milagres.O problema está em adotarem prematuramente que um fato não possue causas naturais.Como eu posso afirmar que um fato não tem causas naturais? Se teletransportasse para o passado uma televisão, os pobres humanos não iriam fazer idéia de como explicar aquilo naturalmente.Isso significa então que a televisão foi obra divina? Não existe um meio de afirmar que algo não possue causas naturais, pois não temos conhecimento de todos os mecanismos do Universo.Se soubéssemos TUDO a respeito do Universo, e pudéssemos provar que o que sabemos é REALMENTE TUDO, aí sim poderíamos adotar algo como um milagre se não soubéssemos explicar, já que, aí sim, este fato não possuiria causas naturais.Mas sabemos quase nada sobre o Universo, então onde está a sensatez em antecipadamente decidir que algo não tem uma causa natural?
A fé é, portanto, algo ilógico e irracional.Se alguém quer ser ilógico e irracional, que seja apenas dentro da sua cabeça.Mas querer enfiar sua falta de lógica e sua irracionalidade goela adentro dos outros é algo digno de pena.Pior ainda é dogmatizar crianças, cujo senso crítico ainda não está formado, com falta de lógica de irracionalidade.Que tal deixar a decisão de ser ilógico ou irracional para quando esta criança tiver idade suficiente para decidir o que quer da vida? Se crianças acreditam em Papai Noel, é óbvio que irão acreditar em qualquer baboseira que os adultos lhe ensinarem.E assim segue o ciclo memético da fé.
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sábado, 4 de outubro de 2008
Razões para um deus - Explicativas
Acredito existirem duas razões básicas para devotar crença em um deus, e são elas a capacidade explicativa que uma entidade divina tem sobre o mundo natural e a capacidade reconfortante que a idéia de um deus pode exercer sobre a psiquê de um indivíduo.Caso existam outras razões, provavelmente são derivações desses dois motivos básicos.
Primeiramente, introduzo minha linha de raciocínio sobre a razão explicativa.O homem, ser pensante, se encontra diante de uma realidade, e tendo noção de sua existência dentro dessa realidade, tenta descrevê-la, entendê-la, conceituá-la.Os motivos para tal investida intelectual não se fazem importantes, tanto pode ser como tentativa para dominar essa realidade ou pura curiosidade.A questão principal é que o homem tenta descrever essa realidade, com os recursos que forem acessíveis.Podemos entender melhor essa questão lendo um livro sobre mitologia.Como minha preferida é a grega, utilizo-a como exemplo.Diante da realidade, os gregos, ainda sem conhecimento científico como o conhecemos, descreviam o que viam, o que sentiam, o que lhes era habitual, através de divindades específicas.os poetas eram os responsáveis por alcançar o patamar divino e de lá trazer as explicações para o mundo natural, através das Musas, que eram as divindades que 'sopravam' estas explicações para os poetas e poetisas.Os gregos descreviam sua realidade personificando as causas, os eventos, em divindades.O movimento habitual do Sol no céu era a carruagem do deus Apolo, responsável por carregar consigo o Sol de um extremo ao outro do céu.Os terremotos e erupções vulcânicas eram a ira de Poseidôn (Netuno), senhor dos mares e dos abalos sísmicos.Até mesmo o tempo tinha uma personificação, Cronos (Saturno).Natural esperar que as representações dessas divindades eram em formas humanas, podendo o deus se metamorfozear.
Não era possível aos gregos, séculos antes de Cristo, saber que os abalos sísmicos eram resultante do movimento das placas tectônicas, ou que os trovões não eram raios de Zeus (Júpiter), e sim nuvens carregadas eletricamente colidindo umas com as outras, ionizando o ar a sua volta e gerando o estrondo característico.O recurso que tinham a disposição era apenas a imaginação, o poder de filosofar e criar mitos para explicar o mundo natural.
Esta é, portanto, a primeira das razões que julgo existirem para conceber um deus : explicação.A vida é cheia de mistérios, o Universo idem, nada mais humano que tentar desvendá-los para poder entendê-los.Perceba que cada deus sempre carrega consigo uma carga de efeitos atribuídos a si.Um deus que não serve para explicar nada é um deus inútil.Para os ignorantes em relação a Teoria da Evolução (ou simplesmente para os que não querem aceitá-la por irem contra a idéia do deus criador), a vida é obra resultante da divindade a quem rogam culto.Para explicar um evento aparentemente sem explicação racional, recorrem a deus.O que, muitas das vezes, beira ao ridículo absoluto, como os 'mistérios' dos santos em janelas ou das formigas escrivãs.
Concuindo, portanto, todos têm necessidade de definições.Todos necessitam viver num mundo onde as coisas estão definidas, onde a causa de efeitos é conhecida.Uns admitem não saber a explicação de alguma coisa, e humildemente pesquisam para descobrir.Outros, apavoram-se por não saber a explicação de um determinado evento e rapidamente 'culpam' o sobrenatural.Já debati com um teísta que julgou que minha resposta 'Não sei' para a sua pergunta 'Como o Universo surgiu' era 'preguiça intelectual' da minha parte.Certamente, a resposta dele 'Foi Deus', não demonstra absolutamente preguiça intelectual nenhuma.Talvez falta total de intelectualidade.
Deus se faz necessário, para alguns, para explicar certos aspectos da realidade.Na minha humilde opinião, atribuir explicações a uma divindade é de um primitivismo incomparável.Não menosprezando os que isso fazem, muito menos fazendo pouco dos fabulosos mitos de diversas civilizações, até porque recursos melhores para esquadrinhar a realidade lhe eram ausentes.Deuses nada explicam.Atribuir a existência da vida, ou do Universo, a um deus, é explicar exatamente o que? Como 'Foi Deus' pode ser a explicação de alguma coisa? Como podem existir pessoas que se contentam com esse tipo de resposta? Longe de mim querer impor um necessidade profunda de querer saber das coisas nas pessoas, mas é realmente difícil compreender.
No próximo post, viso argumentar acerca da segunda razão que faz deus ser necessário para alguns, a razão emocional.E, antes, ou após, posto sobre as três categorias principais a que enquadro os deuses existentes, no âmbito explicativo, isto é, como podemos juntar os deuses em três categorias, utilizando como seletor, os mistérios que estas divindades visam explicar.
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